Conhecemo-nos no primeiro ano do Grupo Escolar Álvaro Botelho, em Lavras, Minas Gerais, tendo ambos sete anos de vida. Ele era apenas seis meses mais velho que eu. Ficamos amigos. Amigos inseparáveis a partir daí. Inseparáveis por mais de dez anos, o tempo de nossa infância e juventude em Lavras.
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012
ALEXANDRIA
Conhecemo-nos no primeiro ano do Grupo Escolar Álvaro Botelho, em Lavras, Minas Gerais, tendo ambos sete anos de vida. Ele era apenas seis meses mais velho que eu. Ficamos amigos. Amigos inseparáveis a partir daí. Inseparáveis por mais de dez anos, o tempo de nossa infância e juventude em Lavras.
CAMBRIDGE
Dois anos sem ele. E parece que foi ontem que sentávamos próximos nas carteiras já antigas do velho Grupo Escolar Álvaro Botelho, com nossas calças curtas, nossas merendeiras e o caderno de caligrafia, onde tentávamos reproduzir as primeiras letras do antigo processo de alfabetização que partia do beabá, do "vovô viu a uva" e outras pérolas.
CAPORAL AMARELINHO
Esse grupo escolar ficava (ainda fica...) na praça Doutor Jorge, que chamávamos, nem sei bem por quê, de "praça dos cachorros". Do outro lado, ficava minha casa, num terreno enorme, de mais de cem metros de comprimento. A velha e ruinosa casa fora construída bem no meio desse terreno, que era em declive. De modo que havia uma longa subida da casa até a rua. E uma longa descida, da casa até a outra rua, a de baixo, que foram ambos - a praça e as ruas "de baixo" - palco de muitas de nossas travessuras.
CARUSO LUXO
Sempre que ouvia uma grande algazarra na saída das aulas, minha mãe subia correndo até a praça, pois sabia que estávamos aprontando alguma: geralmente uma briga com meninos de outras ruas, de outras turmas, em guerras previamente combinadas, das quais saíamos muitas vezes com escoriações leves e o coração mais acelerado pela aventura. Nada muito grave.
HUDSON
Do grupo escolar guardo o cheiro. Muitas e muitas vezes, anos depois, o Vitório relembrou o cheiro do grupo escolar. Dizia que se se fizesse um perfume que sintetizasse o cheiro de um grupo escolar, ficaria rico. Porque o menino que dividia comigo as estripulias e as dificuldades de estudo, naqueles primeiros anos, ainda não era o jovem e o homem saudosistas em que ele ia se transformar.
domingo, 26 de agosto de 2012
IMPERADOR
Uma coisa nos deliciava, especialmente, no grupo: quando faltava a professora e tínhamos aula com a substituta, quase sempre dona Joana. Ela não dava matéria, ou se o fazia, dedicava um bom tempo à contação de histórias. Histórias maravilhosas que não tinham começo, não tinham fim, mas tinham o condão de nos deixar colados e calados nas carteiras, numa viagem de alumbramentos.
KEMPER
Na saída da escola: um dos meninos, o Baltazar, era o fortão da turma. Ganhava todas as brigas. E lá estava ele a desafiar a todos. Então, saíamos eu, o Vitório e o Paulinho, o mais franzino e "nerd" da turma (se nerd houvesse naquele tempo). Vendo a briga, virou o Paulinho para nós: "Vamos brigar também?" Tirou a canequinha do cinto, pôs os livros no chão e, todo lampeiro, pulou nas costas do Baltazar. Este só olhou para trás, deu-lhe um balão por cima da cabeça e deixou-o estatelado na grama... para nossa diversão. Assim era o Grupo Escolar.
PAQUETÁ
Não. Não gostaria de falar de coisas tristes. Não há, porém, outro caminho que lembrar alguns fatos pouco alvissareiros desse período - dos sete aos dezoito, dezenove anos - de nossa intensa convivência. E o primeiro momento tenso da vida do Vitório foi no término do Grupo Escolar. Eu fiz um ano da admissão (uma espécie de quinto ano) e depois minha mãe conseguiu, com muito esforço, matricular-me no primeiro ano do ginásio, no Colégio Nossa Senhora Aparecida. O Vitório ficou para trás.
XENIA
Era o Vitório um saudosista. E foi essa sua principal característica em toda a sua vida. Amava o passado que não vivera, naqueles tempos de Lavras. Depois, passou a amar e a cultivar o passado que nós vivêramos, embora fosse um piloto atento às novidades tecnológicas de seu metier. Não houve adeuses entre nós. Cada um foi para um lado, porque a vida quis assim. Mas os laços de amizade permaneceram fortes. Família a gente não escolhe e, por isso, amamos ou não os parentes, irmãos, primos, tios... Mas, amigos... esses a gente escolhe, cultiva, mantém para sempre, mesmo depois que eles partem. E o Vitório, assim como o Augusto (que também já faleceu), não é apenas um irmão que escolhi, é o eterno moleque que sabia mais aritmética do que eu no Grupo Escolar Álvaro Botelho. Sobrevivi para lembrar e contar o pouco que lembrei. E se dei o nome de LETRAS QUE CHORAM a esse blog, foi para ficar para sempre gravada a preferência do Vitório pela música de Francisco Alves, seu cantor predileto da velha guarda, que soltava a voz no rádio e nos discos pretos de vinil, cantando: "Adeus, adeus, adeus, cinco letras que choram..."
FIM
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